Desastre sócioambiental em Brumadinho

Como trabalhar em sala de aula os impactos causados pelo rompimento da barragem na cidade de Brumadinho?

Publicado em 14/02/2019

Quais conteúdo trabalhar?

Coleção Geografia Espaço e Vivência Volume 7: Unidade V: Região Sudeste – capítulo 11: “Sudeste, centro econômico do Brasil” e capítulo 12: “A transformação das paisagens e os problemas ambientais no Sudeste.

Coleção Geografia Espaço e Vivência Volume 9: Unidade II: Consumo, meio ambiente e desigualdade no espaço mundial – capítulo 4: “O capitalismo e a sociedade de consumo” e capítulo 5: “Meio ambiente e problemática ecológica”.

Volume Único Geografia Espaço e Identidade: Unidade 10: Consumo e questões ambientais na atualidade – capítulo 35: “Sociedade de consumo e meio ambiente global” e capítulo 36: Degradação ambiental e mudanças ecológicas globais”.

Para enteder a discussão

Após 3 anos do desastre na cidade de Mariana (MG) as cenas trágicas se repetem em Brumadinho (MG). O rompimento de mais uma barragem da mineradora multinacional Vale, no dia 25 de janeiro, provocou o mais grave desastre sócioambiental da história por vazamento de minério.

A Companhia Vale do Rio do Doce foi criada em 1942 por Getúlio Vargas para explorar a riqueza mineral do Quadrilátero Ferrífero e foi privatizada em 1997 por Fernando Henrique Cardoso. Atualmente é uma mineradora multinacional de capital aberto, e uma das maiores empresas de mineração do mundo.

Na história econômica do Brasil, a mineração sempre rendeu muito dinheiro ao país. Atualmente representa aproximadamente 5% do PIB nacional, gerando 180 mil empregos formais diretos. O minério de ferro representa 8,82% das exportações brasileira, logo atrás da soja.

Minas Gerais sempre teve grande participação, desde o período colonial, na produção nacional de minérios de ferro, com destaque para a região denominada Quadrilátero Ferrífero. Atualmente, a mineração representa quase 10% do PIB do Estado, responsável por mais da metade da produção de minerais metálicos do país.

A história das transformações na paisagem de Minas Gerais é um marco de contradições: ao mesmo tempo que tem como identidade suas serras com seus exuberantes morros, é dependente de uma atividade econômica que persiste em destruí-las pela exploração mineral. Após o rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho, aproximadamente 13 milhões de metros cúbicos de minério de ferro, desaguaram no Rio Paraopeba, pertencente a bacia do Rio São Francisco – um dos mais importantes cursos d’agua no Brasil - que abastece cidades e milhares de pessoas.

O Rio Paraopeba era a principal fonte hídrica do munícipio de Brumadinho antes do rompimento da barragem. Com a grande quantidade de rejeitos tóxicos desaguados no rio, órgãos de fiscalização ambiental dizem que o nível de oxigenação atualmente é zero devido a contaminação. Em decorrência da atividade mineradora, a lama que estava represada na barragem contém metais pesados e por isso contaminam o solo e a água da região. Parte dos rejeitos tóxicos (níquel, magnésio, ádmio, amônia, muita sílica, silte e argila), ficam retidos nas encostas e no leito do rio, ainda podendo ser carregados pelas águas das chuvas, aumentando a concentração de componentes tóxicos.

O surto de doenças como febre amarela, leptospirose, esquistossomose e dengue são consequências do impacto do desastre para as comunidades que vivem na região. Os efeitos do mar de lama tóxica de rejeitos na saúde humana ainda são objeto de estudos por pesquisadores. Na história do Brasil, poucas são as tragédias coletivas em que tantos moradores de uma mesma localidade morreram da mesma causa no mesmo dia.

Ambientalistas analisam o rompimento da barragem como mais um ato negligente, pois há tempos na história do Brasil, governantes lutam pela flexibilização dos licenciamentos ambientais para favorecerem empresários dos setores de mineração, petróleo, hidrelétricas e agronegócio, legitimando crimes socioambientais como no recente caso de Brumadinho.

O desastre ocorrido reativou as discussões sobre medidas preventivas que defendam o meio ambiente e as populações que habitam as áreas de extração. De acordo com peritos e pesquisadores da área, o rompimento em Brumadinho poderia ter sido evitado considerando os pontos falhos analisados e ocorridos no caso de Mariana.

O método de construção de barragem por montante, considerado o mais simples, barato e menos seguro, devem ser evitados adotando outras práticas. A falta de fiscalização e a incapacidade de cobrar as multas aplicadas às empresas que desrespeitam as leis são práticas desprezadas pelo Estado. 

Especialistas apontam que a destruição causada ao meio ambiente por este desastre em Brumadinho é irreparável, tal como as perdas humanas ocorridas. Essa é a consequência da “ideologia do progresso”: desenvolvimento econômico predatório a todo custo e às custas da natureza e da vida humana; o mito do crescimento econômico colocando o lucro sempre à frente da natureza e da reprodução da vida.

Sugestão de atividade

Apresentar poemas pode ser um forma de introduzir conteúdos e chamar atenção dos estudantes para a temática da aula. 

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, cidade localizada na região centro-sul do estado de Minas Gerais, pertencente ao Quadrilátero Ferrífero. Passou sua infância na Fazenda do Pontal, local que hoje é um depósito de rejeitos da Vale.

A sua memória da cidade onde nasceu permeia sua obra poética. O poeta mineiro acompanhou as transformações e degradações na paisagens provocada pela mineração predatória da Vale.

Drummond compôs poemas que expunham os problemas sobre a mineração, “versos que jogavam pedras nas mineradoras e nos governos”. Em tom profético suas linhas já anunciavam o desastre de Mariana e da recente tragédia de Brumadinho.

Lira Itabirana (1984)

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?

Para ir mais longe em casa e na sala de aula

O MOVIMENTO DA LAMA - Revista Piaui
"Vídeos das câmeras de segurança e imagens inéditas de satélite revelam novas peças do quebra-cabeças de Brumadinho; especialistas analisam."