A tensão geopolítica no Estreito de Ormuz

Você está por dentro das tensões geopolíticas que vem ocorrendo no Estreito de Ormuz? O lugar é um ponto estratégico para o tráfego global de petróleo e também palco de conflitos. Confira:

Publicado em 16/07/2019

Coleção Geografia Espaço e identidade: Unidade 11 – Desigualdades, conflitos e tensões no mundo contemporâneo, capitulo 38 - Conflito– e tensões no mundo globalizado – O Irã e a atual geopolítica do petróleo

Para entender a discussão

No dia 13 de junho de 2019 dois navios petroleiros foram atacados no Golfo de Omã: um navio norueguês e outro japonês. O ataque desencadeou uma tensão na comunidade internacional, temendo que este fosse um sinal de declaração de guerra entre o Irã e os Estados Unidos.  Por que um incidente militar desta envergadura é possível hoje? E por que as tensões se cristalizam neste estreito em particular? O que faz do Estreito de Ormuz ser um ponto estratégico geopoliticamente?

O Estreito de Ormuz é um acidente geográfico que faz a ligação do Golfo Pérsico (localizado no Oriente Médio, um braço do Mar da Arábia) com o Golfo de Omã – saída para o Oceano Índico. Ele se configura como um importante corredor marítimo, já que é a porta de entrada para portos localizados nos seguintes países: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar (que ocupa uma península avançada sobre o golfo), Barém (uma ilha no golfo), Kuwait, Iraque, e Irã.

O Estreito de Ormuz, está localizado entre o Irã, em sua costa norte, e Omã, ao sul, sendo que somente 40 km de mar separa os dois países. O estreito é acima de tudo uma passagem obrigatória para os grandes exportadores petróleo como: Irã, Arábia Saudita, Iraque, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e Catar.

É portanto, nesta pequena região, que ocorre um terço de todo o tráfego petroleiro do mundo e de um quinto de todo comércio global de gás natural liquefeito. Cinco importantes membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) — Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque — exportam sua produção pela área. O Qatar, principal exportador de gás natural liquefeito do planeta, envia quase todo o seu produto por Ormuz.

Essa configuração particular faz do Estreito de Ormuz um ponto eminentemente estratégico. Isto explica as numerosas bases militares instaladas na região (americanas, inglesas e francesas) considerada como um “centro nervoso do petróleo internacional”.

Sem dados concretos, os Estados Unidos acabaram acusando o Irã de ser responsável pelos ataques e sabotagens aos dois navios petroleiros que passavam pelo estreito. O Irã negou qualquer envolvimento com o ataque aos navios petroleiros no estreito de Ormuz e disse que esta é uma “manobra diplomática de sabotagem dos serviços de inteligência que trabalham a serviço dos interesses econômicos das elites ocidentais”.

Os ataques ocorreram no mesmo dia em que o ministro do Japão, Shinzu Abe, realizava uma visita histórica ao “Líder supremo do Irã”, Syed Ali Khamenei, o que fez com que aumentassem as suspeitas entre a opinião pública internacional, de uma manobra dos Estados Unidos para tentar criar uma tensão na região, avançando com seus planos de controlar o estreito e atacar a República Islâmica do Irã.

O presidente Donald Trump já havia declarado em maio deste ano que o Irã é “uma força desestabilizadora no Oriente Médio”, e com esta alegação enviou porta-aviões e bombardeiros para a região. Em abril os EUA haviam voltado a impor sanções ao Irã impedindo o país de exportar seu petróleo.

O pano de fundo

Hoje o Estreito de Ormuz é o coração de fortes tensões. O pano de fundo deste conflito é o acordo nuclear iraniano assinado em 2015. Este acordo visa de um lado a limitar o desenvolvimento de armas nucleares na República Islâmica do Irã, e, de outro, os Estados Unidos e seus aliados europeus devem encerrar sanções econômicas em troca do desmantelamento do programa nuclear.

Mesmo após o Irã ter firmado acordo com o Conselho de Segurança da ONU e mais um grupo de potências internacionais, que passou a ser aplicado de fato em janeiro de 2016, e a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) ter verificado que o programa nuclear iraniano tem fins pacíficos, o presidente dos Estados Unidos - Donald Trump - não demonstrou acordo se referindo a ele como “um desastre”.

Em 2018, Trump decidiu instaurar novamente sanções econômicas com o objetivo de fazer o Irã renegociar o seu programa de desenvolvimento de armas nucleares. É neste contexto que os EUA acusaram o Irã de ser responsável pelos ataques aos navios petroleiros no dia 13 de junho de 2019, mesmo com as declarações dos operadores do navio japonês contradizendo a versão estadunidense, de que o Irã tenha sido responsável pelos ataques.

Segundo especialistas, a estratégia adotada pelos Estados Unidos é caracterizada pelo “falseamento da realidade”, criando noticiais falsas, com o objetivo político, econômico e militar de legitimar uma invasão bélica em outros países afim de garantir seu imperialismo econômico.

No dia 10 de julho, navios iranianos tentaram impedir a passagem de um navio petroleiro britânico pelo Estreito de Ormuz, isso ocorreu poucos dias depois de Londres ter interceptado um navio petroleiro iraniano em Gibraltar (promontório e território ultramarino britânico na costa sul da Espanha) por suspeitar que ele estaria violando as sanções. 

Este é um capítulo mais recente do drama geopolítico envolvendo o  Irã, os EUA e a Europa.  De acordo com analistas geopolíticos e diplomatas, a cada novo pequeno incidente, cresce ainda mais o risco de uma guerra na região do Estreito de Ormuz, possivelmente uma das mais explosivas do mundo.

Para ir mais longe em casa e na sala de aula

- Manobras e sabotagens no mar de Oman (Carta Capital)

- Por que a tensão entre EUA e Irã no Estreito de Ormuz pode fazer disparar o preço do petróleo (BBC News)

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