Entendendo as enchentes em São Paulo

Por que a cidade de São Paulo entrou em colapso com as chuvas no mês de feveireiro? Confira:

Publicado em 02/03/2020

A cidade de São Paulo amanheceu em estado de alerta no início da semana (10/02/2020). As chuvas excessivas fizeram da cidade um caos. Algumas das principais vias foram atingidas pelas águas e interditadas, a circulação da cidade se tornou intransitável, desabamentos, quedas de árvores e enchentes foram os estragos ocorridos. Mas seriam as intensas chuvas as principais culpadas pelas enchentes? Ou a maneira em que a cidade foi planejada e construída que deixou mais difícil suportar as precipitações?

O governo do estado e a prefeitura de São Paulo, atribuíram a situação das enchentes às chuvas excessivas em um curto período de tempo. Porém, segundo especialistas, as justificativas que atribuem o cenário de caos da cidade à chuva excessiva não é válida e insuficiente para explicar o problema das enchentes.

Em entrevista para BBC News, o professor Anderson Kazuo Nanako do Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que os grandes municípios brasileiros não foram planejados para "respeitar os ciclos hidrológicos da natureza": a evaporação da águas e, depois, as precipitações que atingem as cidades. De acordo com Kazuo, “o normal seria a água se infiltrar no solo, para depois desembocar nos córregos e rios, que então correm para o mar. E, assim, o ciclo recomeçaria", explica.

As enchentes em São Paulo são produtos de sua urbanização. Elas são resultado de uma interação complexa entre fenômenos meteorológicos, hidrológicos e humanos. As chuvas contínuas que atingiram a capital paulista provocaram uma concentração de água em excesso que não pode ser absorvida pelo solo já saturado e impermeabilizado, e a estrutura da cidade não suportou o grande volume de chuvas que atingiu a região.

As áreas impermeabilizadas urbanas, com deficiência do sistema de drenagem urbano, onde o fluxo de água segue rapidamente para as baixadas e rios, superaram a capacidade de escoamento, o que causou o transbordamento das margens dos principais rios que cortam a cidade: Pinheiros e Tietê. As marginais das principais vias da cidades ficaram interditadas devido ao transbordamento dos respectivos rios.

Para o professor Anderson Kazuo Nanako, as mudanças climáticas também têm um papel importante nesse processo. "Com as mudanças climáticas, a temperatura dos espaços urbanos tem ficado maior. A tendência é que tenhamos grandes quantidades de chuva intensas em um período mais curto de tempo. E as cidades não se prepararam para isso", diz.

Em entrevista para o jornal Nexo, a professora Silvia Passarelli, explicou que a abertura de vias estruturais da cidade junto aos rios (Pinheiros e Tiête), com a ocupação inadequada da margem e a impermeabilização do solo resultam nos alagamentos que paralisam a cidade.

Para a urbanista, a combinação da questão climática, onde as chuvas estão mais fortes e concentradas em períodos mais curtos, junto com a impermeabilização do solo da cidade e, principalmente das margens dos rios, seriam as principais causas das enchentes em São Paulo.

De acordo com a Prefeitura de São Paulo, existem mapeados 280 cursos d’agua pela cidade. Porém, segundo o geógrafo Luiz de Campos, co-criador do projeto “Rios e Ruas” (link), estima que esse número seja muito maior. O projeto mapeia desde 2010 os rios e córregos subterrâneos na capital paulista. Conforme a estimativa realizada pelo grupo, existem entre 300 a 500 cursos d’agua escondidos sob ruas e avenidas pela cidade, que juntos somariam aproximadamente 3.000 quilômetros de extensão.

O processo de urbanização que enterrou os seus rios, conjuntamente com uma série de questões (meteorológicas, hidrológicas e sociais) são as principais causas desse fenômeno, fazendo com que as enchentes na cidade de São Paulo sejam recorrentes.

 

Para ir mais longe mais longe em casa e na sala de aula...

 

Documentário “ENTRE RIOS" - a urbanização de São Paulo

Projeto Rios e Ruas / Capital Natural

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Caos em São Paulo: entenda a gravidade dos estragos causados pela chuva – Entrevista com o professor Valter Caldana / G1 - Globo

Rios que foram enterrados com a urbanização da cidade / São Paulo São

Por que São Paulo para quando chove, segundo esta urbanista / Nexo Jornal

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