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LENÇÓIS MARANHENSES: UM DESERTO NO BRASIL?

A equipe do Geonauta foi conhecer esse importante ecossistema brasileiro para oferecer uma proposta didática que pode ser colocada em prática nas aulas de Geografia. Confira.*

*O texto pode ser reproduzido para fins didáticos desde que citado da seguinte forma: ; Boligian, Levon; Turcatel, Andressa. Lençóis Maranhenses: um deserto no Brasil? Site Geonauta <www.geonauta.com.br>. Data de acesso. Siga @geonautas.

Professor: Você poderá trabalhar o texto deste post na íntegra e, na sequência, diversas ATIVIDADES propostas pelo Geonauta. BAIXE GRATUITAMENTE os arquivos no final desta página.

Ensino Fundamental 2 e Médio: biomas brasileiros, território brasileiro, parques naturais, áreas de preservação, região Nordeste, dinâmicas da biosfera.

Um mar de dunas!

As primeiras impressões ao chegar nos Lençóis Maranhenses podem te enganar! Isso porque, ao nos depararmos com os gigantes depósitos de areia, temos a ideia de que estamos em um imenso deserto.  Na verdade, é exatamente o contrário! Embora a visão das dunas seja predominante, os Lençóis são um ecossistema tropical, onde o que não falta é umidade: o volume de chuvas pode chegar a 2.000 mm anuais.

Pessoas do mundo inteiro vem ao Brasil para conhecer esse lugar único, onde a natureza conversa com os visitantes e te faz sentir parte dela.

Onde fica o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses está localizado na Região Nordeste, no estado do Maranhão, a cerca de 250 km da capital São Luís. A maior cidade próxima é Barreirinhas onde, em geral, as pessoas chegam para conhecer o parque.

A região Nordeste do Brasil, possui grande diversidade natural climática e de formações vegetais. Com base neste e em alguns outros aspectos naturais e culturais, é comum dividirmos a região em sub-regiões: a Zona da Mata, o Agreste, o Meio-Norte e o Sertão.

O Meio-Norte, onde se localizam os Lençóis, é parte mais ocidental do Nordeste. Essa área é considerada como de transição entre formações vegetais do clima semiárido (como o Cerrado) e equatorial (como a floresta Amazônica). É também onde se desenvolve a Mata dos Cocais. Entretanto, a ocorrência da formação dos Lençóis possui características únicas. Vamos entender melhor?

O Lençóis são um deserto?

Não! Os desertos são biomas caracterizados pelos baixíssimos níveis de precipitação anual que, em geral, não passam dos 250 mm de chuva, muitas vezes, concentradas em alguns meses do ano. Tal característica climática decorre da situação geográfica desses biomas, a maioria localizados nas regiões próximas aos trópicos, onde há um tipo particular de circulação de ventos e de correntes marítimas.

Outras características importantes são a presença de espécies de fauna e flora adaptadas ao ambiente árido e às condições extremas de temperatura (dia com temperaturas altas e noites geladas).

Além disso, os desertos podem ser compostos por dunas de areia, como no caso dos desertos da Namíbia e do Saara, na África, e ou por terrenos rochosos, como no caso dos desertos de Sonora, no México e Estados Unidos ou do Atacama, no Chile. Dessa forma, com exceção da presença de dunas, nenhuma dessas outras características se aplicam aos Lençóis Maranhenses.

Lençóis Maranhenses: um fenômeno geológico e geomorfológico muito peculiar.

Os Lençóis Maranhenses recebem esse nome justamente por comporem uma paisagem com relevo ondulado por dunas, entremeadas por depressões com lagoas de águas cristalinas, o que, visualmente remete à imagem de grandes lençóis brancos desarrumados. Esse enorme campo de dunas, o maior da América do Sul, com cerca de 1500 km2 – área onde caberia toda a cidade de São Paulo – começou a se formar há cerca de 10 mil anos. É decorrente da atuação contínua de dois fenômenos: os ventos alísios de leste e a alternância de duas estações climáticas, uma seca e outra chuvosa.

Lençóis Maranhenses com suas dunas entremeadas por lagoas,
vista que se assemelha a lençóis estendidos levemente amassados.

Os ventos alísios sopram o ano todo do mar para o continente, fazendo com que, nesta parte do Maranhão, o movimento da areia forme pequenas dunas de até meio metro na linha de praia. São as chamadas dunas “bebês” que, com os anos, aumentarão de tamanho. Já as dunas adultas podem alcançar os 40 metros de altura e se deslocam em em direção ao interior.

Durante a estação chuvosa, que ocorre de janeiro a julho, as dunas absorvem rapidamente a água das chuvas, elevando os níveis do lençol freático, que aflora à superfície enchendo as depressões e formando lagoas. Como nesse período a areia fica encharcada, há pouca movimentação das dunas.

Já durante a estação seca, entre os meses de agosto e dezembro, a escassez de chuvas faz com que boa parte das lagoas sequem e que as partículas de areia fiquem soltas, aumentando a mobilidade das dunas pelo vento. Nos dias mais ventosos, quando a velocidade pode chegar até 70 km/h, uma duna pode se deslocar até 10 centímetros.

Veja, por meio do infográfico, como o fenômeno todo ocorre.

Revista Pesquisa Fapesp (edição 205).

Dica geográfica: Para saber mais e promover a interdisciplinaridade com Física, leia a reportagem Segredo nos Lençóis Maranhenses, na Revista Pesquisa Fapesp (ed. 205).

Qual é a importância dos Lençóis como patrimônio natural?

Os Lençóis Maranhenses são um dos lugares no mundo onde o processo geológico, descrito anteriormente, pode ser visto em andamento. Além disso, compõem um ecossistema onde estão presentes espécies de seres vivos oriundos do Cerrado, da Amazônia e da Mata Atlântica, formando um complexo bioma costeiro marinho, com a presença de manguezais, restingas, lagoas e vegetação de campos. Ou seja, todas as áreas no entorno do parque estão em constante interação.

A cada duna é possível observar uma paisagem diferente. As formas das dunas, a cor das lagoas, a velocidade do vento, a presença da vegetação e diversas outras características, compõem paisagens únicas.

Nas lagoas perenes, aquelas que não secam totalmente durante o ano, é possível encontrar alguns tipos de peixes.

A dinâmica da formação dos Lençóis Maranhenses mostra como a hidrosfera, a atmosfera e a litosfera estão em constante interação. No entanto, é fundamental compreendermos também, como a dinâmica social se integra a esse ambiente.

As pessoas que vivem na área do Parque estão sediadas, principalmente, em duas comunidades, a da Baixa Grande e a da Queimada dos Britos, que ficam nos chamados oásis. Nesses locais, há presença de vegetação abundante e de lagoas – dentro do campo de dunas. Foi nessas comunidades que a equipe do Geonauta se hospedou durante os dias de travessia dos Lençóis Maranhenses.

Devido à sua importância ecológica, foi criado em 1981, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, com uma área de 156.584 hectares, abrangendo partes dos municípios maranhenses de Barreirinhas, Primeira Cruz e Santo Amaro.

Além de preservar a biodiversidade do ecossistema local, a criação do parque também veio proteger a cultura das comunidades tradicionais que vivem dentro da área demarcada. São dezenas de famílias que vivem da pesca artesanal, da agricultura de subsistência e do pastoreio e, mais recentemente, do ecoturismo.

Essas famílias trabalham conjuntamente para atender os visitantes, oferecendo serviços como os de guiamento, de hospedagem e de alimentação. Em geral, os redários (local de repouso) ficam ao lado das casas dos moradores e as refeições são compartilhadas.

Placa que indica a área do parque e outras informações.

Em julho de 2024, pouco antes da equipe visitar os Lençóis, o Parque também foi reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO, devido à sua beleza excepcional e por ser um fenômeno natural único no planeta. Sobre isso, leia a reportagem do Governo Federal Brasileiro.

Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses é reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade – Título concedido pela UNESCO aumentará a visibilidade global do local, atraindo turistas de todo o mundo. A chancela garante, ainda, a valorização ambiental da região e a necessidade da sua preservação.

O desenvolvimento sustentável é possível nos Lençóis?

É importante lembrar que o desenvolvimento sustentável é um conjunto de ações que abrangem as esferas governamentais, empresariais e a própria sociedade. Assim, além das ações gerais de conservação do parque, monitoramento e pesquisa, a prestação de serviços na região é uma atividade que precisa estar integrada ao ambiente.

Anualmente, mais de cem mil turistas visitam os Lençóis, atraindo brasileiros de todas as regiões, mas também muitos estrangeiros, pessoas vindas de diferente países, como França, Argentina e Estados Unidos.

O maior afluxo de visitantes ocorre após o período das chuvas, quando as lagoas estão cheias. Os turistas podem optar por passeios pelos rios da região, sendo o Rio Preguiças o principal curso d’água, visitar as lagoas mais próximas das bordas do parque, como a famosa Lagoa Azul, ou realizar travessias, que podem levar de dois a quatro dias, como a que a equipe Geonauta realizou na ocasião.

Passeio de barco pelo rio Preguiças. Em todo o trajeto é possível observer a dinâmica desse ambiente como o movimento do fluxo do rio e do mangue.

Atualmente, há uma grande preocupação de gestores, pesquisadores e da população nativa a respeito dos impactos ambientais ocasionados pela atividade turística sobre esse delicado ecossistema.

Contudo, existem estudos que apontam formas e possibilidades para a promoção do turismo sustentável nos Lençóis Maranhenses, desde que sejam adotadas práticas que conciliem a preservação ambiental com o desenvolvimento econômico e social da região. Leia algumas delas.

Principais Estratégias para o Turismo Sustentável

  1. Controle do Fluxo de Visitantes – Limitar o número de turistas em determinadas áreas para evitar impactos negativos nas dunas e lagoas.
  2. Educação Ambiental – Incentivar visitantes a respeitarem a fauna e flora locais, evitando a degradação do ecossistema.
  3. Infraestrutura Sustentável – Uso de pousadas ecológicas, energia renovável e sistemas de tratamento de resíduos.
  4. Envolvimento da Comunidade Local – Capacitação de moradores para atuarem como guias turísticos e prestadores de serviços, garantindo benefícios econômicos diretos.
  5. Regulamentação e Fiscalização – Implementação de políticas públicas para garantir que o turismo ocorra de forma responsável.

O turismo sustentável pode gerar empregos, fortalecer a cultura local e preservar o patrimônio natural. No entanto, desafios como o acúmulo de lixo e a exploração desordenada precisam ser enfrentados para garantir a conservação da área.

Se quiser aprofundar mais sobre o tema, o professor pode acessar os materiais indicados a seguir:

João Conrado de Amorim Carvalho. Desenvolvimento Sustentável e Turismo: o caso dos Lençóis Maranhenses. Dissertação.Fundação Getúlio Vargas. Novembro/2005.

Anderson Rabelo e Lucas da Silva Ribeiro. Análise dos impactos ambientais do turismo no parque nacional dos lençóis maranhenses. Fevereiro/2019.

Além do texto base apresentado nesta postagem, disponibilizamos para você professor, um arquivo com propostas de ATIVIDADES sobre este conteúdo para desenvolver com seus alunos em sala de aula. Acesse também o arquivo com as indicações da BNCC para as atividades propostas.

Baixe-os gratuitamente!

Perguntas e comentários? Nos envie uma mensagem.

Veja mais imagens dessa experiência nos Lençóis Maranhenses.

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